Eu fico imaginando qual seria a sua reação se eu simplesmente decidisse por você. O que faria se fosse tolhida de sua liberdade de escolha. Meu problema não é, de forma alguma, com a ardente dor de seus dedos em minha face ou com a ânsia provinda do seu punho bem encaixado na boca do meu estomago; o que temo é o fio cortante de um olhar sei que ser o último.
Imagino se já não fez a sua escolha. Nesse caso existiriam três possíveis situações: a) ela foi escolhida e portanto, você esta brincando com a minha mente; b) eu fui escolhido, então você apenas não quer dar o braço a torcer, quer me induzir a dar o primeiro passo; ou c) nenhum de nós foi escolhido e você quer apenas manter a sua vida tal qual ela é… ou era. Tenho que confessar que confio pouquíssimo nessas possibilidades, creio muito mais que você está com medo de decidir, mas acho importante lembrar: não escolher também é uma decisão.
“Você quer que eu fique contigo? Eu fico contigo”. Essa fala me deixou extremamente curioso com duas coisas: 1) qual o significado que um beijo tem para você; e 2) o que você pensa de mim. Hoje vejo as coisas bem menos romantizadas do que na minha infância, por exemplo: não vejo mais um motivo para um beijo ser algo tão sacramentado. Ele só é assim porque há uma construção social e psicológica em cima, assim como os ombros femininos são zonas eróticas em alguns países. Fiquei curioso sobre o que você pensa de mim porque mesmo depois de sair contigo, conversar e expor minhas ideias você ainda acha que estou aqui por um beijo. Se esse fosse o único objetivo eu teria uma relação custo-beneficio muito melhor em uma festa, você há de saber.
Compartilho uma linha de pensamento contigo: “life is a constant learning process”. O que não sei é se o próximo passo também passa pela sua mente. Todo aprendizado para ser efetivo tem que te tirar da sua zona de conforto e portanto, nada a ser aprendido é 100% agradável e o que não é agradável tende a ser ignorado pelo seu cérebro, se você tem outra opção. Dou um copo de refrigerante e um de suco para um criança, qual a tendencia natural dela? Se faço o mesmo contigo sei que optará pelo suco mas apenas porque aprendeu que o refrigerante te faz mal e decidiu pagar o preço da abstinência. E aí que esta o meu ponto: o quanto você está disposta a pagar? Quanta coragem consegue ter?
Eu nunca fui de voltar atrás em uma decisão e há não muito tempo atras eu era irredutível. O que foi, alias, um dos motivos do termino com a Bell, decidi que não daria certo a minha graduação e o namoro e terminei. Fim. Não houve conversa. Admito que este foi um erro homérico e não quero que isto se repita. Por isso te chamei pra conversar no domingo (nunca tinha feito aquilo e provavelmente estava com tanta vontade negativa de ir quanto você), estava prestes a desistir, tal como fiquei depois do RessacaFriends, quando eu tentava puxar conversa contigo e tudo o que recebia eram respostas monossilábicas que demonstravam toda uma não-vontade de viver comigo ou depois no do CERET. Você pode achar que desisto rápido demais ou que sou fraco, até há de ser verdade, mas como você disse uma vez: estou me esforçando.
Juro que prometi não escrever sobre a Annie mas a vontade é grande demais. Prometi porque penso ser um assunto seu, mas estou diretamente ligado a ti (emocional e unilateralmente, no pior dos casos) então creio ter o direito a opinar. Se pensas o contrário, bem… perdão mas já terei escrito. Entendo que sei pouco sobre a relação de vocês e que não conseguirei, de forma alguma, emitir um questionamento imparcial, leve isso em consideração. Você me disse que ela, apesar de dizer te amar, ficava com outras pessoas (não entrarei no mérito disso ser amor ou não, a discussão se estenderia demais) mas também disse que você não queria se relacionar com duas pessoas, então é seguro assumir que você não queira ter um relacionamento no qual o/a parceiro/a tenha essa liberdade, certo? Se a resposta for positiva então você acredita que ela mudou (ou quer sofrer. É, sso também é uma possibilidade). E aí eu te pergunto: por que ela mudaria? Você, de fato, crê na mudança dela ou deseja crer porque o que sente é latente? Se a Bell aparecesse hoje e pedisse para voltarmos eu não iria pois tenho a certeza que há feridas a serem cicatrizadas e mentes a serem mudadas antes de haver a possibilidade de darmos certo, em resumo, nossa janela já passou. E você, tem a certeza que isso não é verdade no seu caso?
Não sei ao certo se você entendeu o que quero contigo. Por vezes sinto que você vê isso tudo como uma competição ou uma dicotomia e eu, claro sou o lado obscuro. Te quero comigo porque é gostoso viver ao seu lado. Não sei se é reciproco mas contigo já tangenciei a sublimidade. A sensação foi tal como os livros dizem ser o primeiro relacionamento: o abraço quente naquele cinema gelado, nos deixarmos estar, lado a lado, no karaokê, a sua preocupação quando digo estar mal ou o cafuné no shopping. É disso também que eu estou falando. Quero poder ser errado com quem eu gosto, já há tanta expectativa lá fora: querem que minhas notas sejam sempre exemplares, minhas atitudes nunca hipócritas. Esperam o dia que eu comece a trabalhar, que pare de jogar, que eu vire um robo pensante. Com quem gosto quero poder errar; quero saber que não será o fim do mundo. Meu problema não é com o julgamento mas quais podem ser as penas.
Quando conversamos sobre o animas eu não fui verdadeiro. Queria que aquilo fosse um intermédio de engraçado e fofo (sei que esta me achando muito escroto agora, a vida tem dessas) e disse ser um dragão. Não tenho nada de dragão, a não ser o mau humor ao ser acordado. O que mais me identificava até não muito tempo é um vampiro (pode rir). Não pela força, velocidade, beleza ou qualquer coisa que a senhorita Crepúsculo possa ter escrito sobre. Foi a dependência que mais me chamou a atenção. Ambos tínhamos no outro nossa fonte de vida: ele o sangue, eu a alma. O golfinho é apenas o espirito de alegra: sem noção, brincalhão e bobo. Somos como primos que nos vemos no verão. O que mais me identifico hoje é um cachorro que ao menor afanho volta, contente, para o lado do dono. Percebe o problema? Não posso ser um cachorro depois de te conhecer porque contigo também aprendi algo (ou estou aprendendo), a me amar mas o cão ama apenas o seu dono. Eu parei para me questionar o porque de me amar e, sinceramente, não soube me responder. Tentei argumentos como “no final só restará você” mas não consegui me convencer. Isso não me preocupa agora, estou estranho a mim mesmo. Nunca fui de agir sem pensar mas por hoje quero fazer o meu anel de coco valer a pena.
Uma das coisas mais cômicas daquele domingo foi a sua reação quando disse que não temos assuntos em comum, eu fiquei intrigado se você realmente acha que temos. Um exercício simples: pense nas coisas que eu gosto. Agora tente achar uma interseção com o que você gosta. Vê? Quando começamos a nos falar eu passei a buscar o que você gostava para ter o que conversar. Você pode achar que é porque sou influenciável ou qualquer coisa parecida mas penso que é por essas vias que caminha o amor (não, não estou querendo dizer ou induzir o pensamento que te amo). Não lembro o nome do filme mas nele o cara começa a estudar pintura porque a namorada é artista; ele é biologo. Existe todo um contexto mas o ponto é que acho muito bonita a imagem de um dispor o seu tempo e paciência pra poder ficar mais próximo do outro. Nesse mesmo dia eu disse que gosto de mentir. De fato, amo mentir; é uma das únicas coisas que me da a sensação que sou capaz (eu se que isso soa muito attwhore). Do jeito que falei sei que ficou a sensação que o faço a torto e a direito e creio que o faria, se fosse capaz. O que acontece é que eu fui criado com um “senso de lealdade” ou qualquer semelhante: tenho a noção dos impactos que minhas palavras e ações podem causar e isso me retem. É como um templário que recebeu apenas treinamento de assassino, useless.
Não sei se era pra mim o tweet. Vou assumir que sim visto que ele estava muito fora de contexto. Quando postei Counting Stars não era uma indireta, estava com ela na cabeça. Agora é provável que você esteja “AHAA! Então você me stalkeia e” mas não, um stalker tenta se esconder e obter informações sem ser detectado, eu sou apenas curioso. Não dou a mínima se sabem ou não disso. De qualquer forma, não é disso que quero falar. Pouco depois do “sem indiretas pf” veio um “we couldn’t be anything”… sério? Por que não simplesmente clicar no desenho verde que você fez, message e digitar “di, não vai rolar nada entre a gente.”? Economizaria o meu e o seu tempo.
Quando comecei esta carta ela não era uma carta, era um desabafo, um texto que faria aniversário nas notas do meu celular tal como tantos outros fizeram. Decidi que te enviaria e pensei em, talvez, terminar com algo como ”se quiser transformar palavras em ações você sabe onde me encontrar” mas isso não cabe mais. Você, no mínimo, não quer agir e eu não quero esperar. Falamos linguagens de afeto diferentes e encaras o mundo de uma forma que eu nunca conseguiria. O que disse no natal continua verdade: fico feliz por ter te conhecido, mas temo que não direi isso olhando nos seus olhos.
rodrigo q
04/03/2014



